quarta-feira,
29 de maio de 2024

Uma Viagem ao Passado: Ruas de Marechal Floriano

A enchente de 1917, pintura de uma foto do João Endlich, pintada pelo Ricardo em 1944

Por Giovana Schneider 

Até dezembro de 1963, Marechal Floriano era uma Vila pertencendo ao Distrito de Santa Isabel. Fundada em novembro de 1862 com o nome de Vila do Braço do Sul. Estas evidências constam no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, relatório do Ministro da Agricultura Pedro Alcântara Bellegarde, datado de 1863, referente aos acontecimentos de 1862, na Colônia de Santa Isabel – ES.

O Distrito de Marechal Floriano foi criado em 13 de janeiro de 1964, pela Lei Estadual nº 1956.

Somente depois de mais de cem anos, Marechal Floriano tornou-se um Distrito do Município de Domingos Martins. Mesmo sendo Distrito a Vila era carente de tudo. Não tinha ruas calçadas, posto médico, o sistema de água e esgoto era péssimo. Criavam animais soltos, a maioria das casas tinham fossa negra. As ruas eram poucas, sem nomes e sem iluminação e, as que haviam eram fracas. O que existia era Praça e Rua da Estação, Rua do Cemitério ou Rua da Palha, Rua de Cima, Rua do Sapo. 

Chegou para residir na Vila em 1961, Edgard de Carvalho Neves, aposentado do Rio de Janeiro. Ele dizia: “Precisamos de formar uma comissão para melhorar esta Vila, que tem um grande potencial para o futuro”.

Melhorias na Vila de Marechal Floriano

Até 1962 a Vila de Marechal não tinha nomes de rua. Em reunião no dia 10 de junho de 1964 ficou estabelecido para dar nomes as Vias Públicas. 

Transcrição da Ata na integra:

Ata da 2ª Reunião da diretoria Executiva da associação pró-desenvolvimento Urbano e Rural do Distrito de Marechal Floriano. (sic)

Aos 10 dias do mês de junho de mil novecentos e sessenta e quatro, foi realizada a 2ª reunião na residencia (sic) do sr. Evay Mendes, a rua principal nesta Vila de Marechal Floriano distrito de Domingos Martins as 16 horas, com a presença do sr. Presidente Emílio G. Hulle, secretário geral, Ary Ribeiro da Silva, sr. Alvino vasem (sic) e o sr. Prof. Edgar de Carvalho Neves.

Com a palavra o sr. Presidente abriu a sessão da associação Pró-desenvolvimento Urbano e Rural do Distrito de Marechal Floriano, passando a palavra ao Prof. Edgard Neves, onde relatou sua viagem ao Rio para tratar de varios (sic) assuntos de interesse da sociedade. 

A seguir o sr. Presidente ouviu toda diretoria para tratar dos nomes de vias públicas do distrito de Marechal Floriano, onde usou da palavra com varias (sic) indicações de nomes de pessoas que ajudou (sic) a construir a Vila de Marechal Floriano, o sr. Ary Ribeiro da Silva, Alvino Vasem (sic), Prof. Edgard e o sr. Presidente Emílio Hulle.

De acordo com toda a Diretoria, as ruas de Marechal Floriano os seguintes nomes: Av. Presidente Kennedy, Praça José Henrique Pereira, Dr Arthur Gerardt, Rua Emílio Hulle, Vitor Travaglia, Rua Antenor dos Santos Braga, Rua Emílio Endlich, Travessa Josefina Rodrigues, Rua Santana, Rua Alvino Vassem, estes nomes foram propostos a diretoria Executiva, e aprovados por unanimidade.

Logo a seguir usou da palavra o Vereador Ary Ribeiro da Silva também secretário desta entidade, se prontificando a pôr o projeto em votação pela Câmara Municipal de Domingos Martins, para que se torne em lei Municipal.

Nada mais havendo que tratar o sr. Presidente deu por encerrada a reunião. Esta ata foi lavrada por um secretário geral que vai assinada por todos os membros da diretoria presentes a esta reunião.

Secretário geral: Ary Ribeiro da Silva.

Emílio G. Hülle

Ary Ribeiro da Silva

Amador Endlich

Fernanda Gianórdoli Stein

Floriano Kieffer

Policarpo Puppin

Selso Stein

José Henrique Pereira Filho

Antônio Merisio 

PS: SIC — expressão traduzida como “assim estava escrito”, é uma marcação feita em uma citação que foi transcrita exatamente como encontrada no texto de origem. 

Ata Original 

Registro de 1974 da Casa de Evahy Mendes – Foto: Jair Littig

Esta casa que aconteceu a 2ª Reunião no dia 10 de junho de 1964. Para dar nomes as ruas da Vila de Marechal. Hoje é onde funciona a Câmara Municipal de Marechal Floriano/ES.

Como eram as placas pintadas por Enildo Endlich. 

CURIOSIDADES:

Com poucas casas, quando chegavam as cartas, elas já vinham com as referências, mencionando a Estação ou a Igreja. 

Os nomes da praça e da rua da Estação, já havia sido decidido quais seriam. Até saiu no Jornal Diário da Manhã – 20/12/1916 – A sagração da Capela – As Festas. Na matéria sobre a inauguração da capela, cita que a praça em frente a Estação passaria a se chamar Praça Dom Fernando Monteiro, pois foi ele que que autorizou a construção da capela na Vila De Marechal Floriano. Bispo do Espirito Santo na época e irmão do Governador Jerônimo Monteiro, não viu a inauguração, pois faleceu no Rio de Janeiro em 23 de março de 1916. A avenida, que hoje se chama Presidente Kennedy seria Jerônimo Monteiro. 

A avenida principal da Vila de Marechal Floriano foi nomeada de Presidente Kennedy, porque comovidos, resolveram homenagear o Presidente Americano que foi assassinado durante uma visita política a cidade de Dallas, no estado americano do Texas, para iniciar sua campanha à reeleição, o Presidente Kennedy, enquanto desfilava pelas ruas da cidade em carro aberto, foi atingido por dois disparos às 12h30 do dia 22 de novembro de 1963. Foi declarado morto meia hora depois.

Em 1964, na 2ª Reunião da Associação Pró-Desenvolvimento Urbano e Rural do Distrito de Marechal Floriano, as indicações dos nomes das pessoas para as Vias Públicas da Vila de Marechal Floriano, nem todas haviam morrido. Atualmente, só pode ter a indicação do nome de quem já morreu. 

Segundo o sr. Jair Borgo, quando as placas ficaram prontas, pintadas pelo Enildo Endlich, ele e seu Ary ficaram até alta madrugada colocando as placas nas suas respectivas ruas.  

Depois das placas colocadas com os nomes nas ruas da Vila de Marechal, nem todos os moradores ficaram satisfeitos, pois algumas pessoas questionaram o porquê de não colocarem o nome deles, pois eram moradores daquela rua. Assim foi explicado que era para homenagear e tal. No final, acabaram entendendo. 

O antes e depois (2024) de algumas ruas de Marechal Floriano:

1ª Foto — Subida da Igreja Católica. Rua Colina da Fé e da Ciência, a foto em preto e branco é do inicio da década de 1970.

 2ª Foto — Av. Presidente Kennedy, a foto em preto e branco nos fundos dá para ver a Capelinha ela é de 1956 por aí, a casa é a que hoje está localizada a Casa Andreia.   

3ª Foto — Estação de Marechal Floriano e a Praça José Henrique Pereira, tirada da casa dos agentes da estação, não ficou muito boa, pois as árvores atrapalharam a visão. A foto em preto e branco é de 1930, nos fundos dá para ver nitidamente o Morro do Cruzeiro limpo, já na segunda, mais conhecido como Morro da Macefel, cheio de casas. 

4ª Foto — Na foto em preto e branco de bicicleta está a dona Paulina Koelher Stein, que é de 1978, nos fundos a casa da Leopoldina, quem morava era o guarda-fio, seu Paulo, informação do Jair Littig. Na foto colorida, nos fundos visualizamos a Rua Selso Stein.

Caminho dos Schunk — Estrada do Caracol

Foi um caminho muito utilizado, para quem destinava a Santa Izabel. Conhecido como caminho dos Schunk, devido residir nesta região, seu Wandelino Schunk. Era um caminho mais curto, pois entrava no terreno dos Entringer, Fischer, Baumgarten, saia perto do trevo de Campinho. Também foi construído uma pinguela, no rio Braço do Sul, na Vila de Marechal. Passagem que até hoje ainda existe, porém de metálica. Este caminho foi extinto, depois que a igreja Cristã Maranata (Maaniam) comprou as terras, proibindo a passagem. 

Abaixo: Foto do caminho dos Schunck em 1976

Alguns homenageados, quem foram:

Nélio José Wassem — Nasceu em 18 de novembro de 1938, filho de Paulo Wassem e Ana Regina Borgo. Em julho de 1959 faleceu de um acidente ferroviário, pois vinha de Vitória no trem que chegava em Marechal às 11:30. Bateu com a cabeça na ponte de Ferro, na saída de Viana. Seu último jogo foi em Santa Isabel, onde o América venceu. Neste dia os jogadores calçaram meias novas, que na época qualquer uniforme novo era festa. Nélio não foi um craque, mas era admirado por todos. Jair Littig, na época com 10 anos, relata que lembra bem quando o trem chegou na Estação de Marechal, onde foi divulgado o acidente. Havia um clima de tristeza entre todas as pessoas que o conheciam. Foi à primeira vez que colocaram luto na camisa americana. Hoje, seu nome é homenageado em uma rua de Marechal Floriano — Rua Nélio Wassem.

Belarmino Pinto — Considerado um grande empreendedor. Não existe registro exato de sua chegada na Vila de Marechal Floriano. Tinha uma grande casa de comércio e compra de café, como sócio tinha o senhor Aguilar Freitas, fez grandes investimentos na Vila como luz elétrica, construções de casas, cinema e empenhou-se na construção da capela. Em 1917 vendeu todo o seu patrimônio par o senhor José Henrique Pereira. Um homem que fez muita para a Vila de Marechal Floriano. Infelizmente, não temos nem uma foto dele. Hoje, seu nome é homenageado em uma rua de Marechal Floriano — Rua Belarmino Pinto.

Delimar Schunk — Faleceu em 09/01/1987 aos 18 anos de idade. Filho do sr. Osvaldo Schunk, ele que foi o pioneiro daquela localidade, e com o passar dos anos foi vendendo partes de sua propriedade, possibilitando assim, a abertura da rua. O jovem Delimar Schunk, era pessoa querida pelos moradores, morreu de uma forma, trágica, que deixou todos entristecidos. Desta maneira, em memória deste jovem, além de atender um anseio da comunidade local e em solidariedade com a família, nasceu — Rua Delimar Schunk, também conhecida como Rua da Linha. 

Antenor dos Santos Braga — Natural de Niterói, Rio de Janeiro, nasceu em 13 de junho de 1891. Filho de José dos Santos e Mariana Braga. Em 1921 já tinha Farmácia em Nova Almeida, 1923 em Itaguaçu. Em 1929 chegou na Vila de Marechal Floriano, foi dono da Farmácia São Jorge até 1958, quando o sr. Ary Ribeiro da Silva comprou. Faleceu em Marechal Floriano no ano de 1981. Em Marechal Floriano — Rua Antenor dos Santos Braga.

Thieres Veloso — Nasceu na Bahia, em 14 de junho de 1872, tendo falecido em Vitória, em 27 de agosto de 1930. Brilhante advogado, parlamentar, escritor e jornalista. Fundador do jornal A Gazeta, um dos mais importantes jornais do Espírito Santo. Em Marechal Floriano — Rua Thieres Veloso.

Josefina Rodrigues — Revendo as histórias da floricultura em Marechal Floriano. Uns dos primeiros registros que temos, foram os jardins de rosas de Josefina Rodrigues, em 1911. Pouco se sabe desta senhora. Em 1911 já residia na vila. Uma senhora de pequena estatura, gostava de andar com um lenço no pescoço. Quando conheci já tinha cabelos brancos. Diziam que era carioca. Faleceu no final dos anos sessenta. — Relato do Jair Littig. Temos em sua homenagem próximo a ponte Jacinto Taquette — Travessa Josefina Rodrigues.

David Canal — Tropeiro, nascido em Araguaia.  Pai do sr. Jaime Canal que foi açougueiro muitos anos aqui em Marechal Floriano. O sr. David Canal quando vinha com sua tropa transportando mercadorias, naquela época muita coisa era levada de um lugar a outro no lombo de mulas, sempre parava próximo onde fica a Prefeitura de Marechal, para descansar e depois seguir viagem. Também nesta localidade funcionou por muitos anos um açougue do seu filho sr. Jaime Canal e do sr. Flauzino Fazolo, mais conhecido com seu Neném Fazolo.  Atualmente este trecho virou uma rua que leva o nome — Rua David Canal.     

Apelidos de algumas ruas:

Rua Clara Endlich, conhecida como “Baixada da Égua”, antigamente nesta baixada havia um pequeno pasto e, consequentemente deixavam cavalos e também éguas pastando por ali, enquanto faziam suas atividades, assim o nome pegou.

Rua Manoel Kill, conhecida como “Rua do Cafezal”, pois havia uma plantação de cafezal e apenas uma estradinha para passar.

Rua Gustavo Hertel, conhecida como “Rua do Batatal”, esta é porque segue Batatal de Alfredo Chaves.

Rua Thieres Veloso, segundo informações, lá era praticamente um brejo com muitos sapos, por isso foi apelidada de “Rua do Sapo”.

Av. Waldemar Mees, conhecida como “Rua da Ilha”, pois antes do aterro do rio, para favorecer a construção da BR, a rua ficava às margens de curvas sinuosas do rio e era ladeada também por um córrego. Assim na época das cheias a rua ficava ilhada.

      NOMES ANTIGOS               ATUAL
Praça da Estação Praça José Henrique Pereira 
Rua da Estação Av. Presidente Kennedy
Rua do Barracão / Serraria Rua Santana 
Rua do Correio / Biluca Rua Drº Arthur Gerhardt
Rua da Palha / Cemitério  Rua Victor Travaglia 
Rua do Pontilhão / Padaria Rua Emílio Oscar Hülle
Rua do Sobrado Rua Emílio Gustavo Hülle
Estrada Velha/ Açougue do OlímpioBR 262
Pasto do José Henrique Rua Emílio Endlich 

Foto tirada em 30/04/2024 — Giovana Schneider 

A paisagem mudou. A Vila cresceu e agora está repleta de casas, prédios, comércios e praças. E como está no hino de Marechal Floriano, o progresso aqui chegou. Atualmente, aqui na sede (centro), temos um pouco mais de 100 ruas, sem contar com as estradas que foram abertas. Sim, o progresso aqui chegou, e a tendência é crescer mais, como disse Jair Littig: “Vai chegar o dia que para ir para Vitória, Capital, vai levar uns vinte minutos”.

O que é preciso é cuidar que o progresso não seja desfreado, ou seja, cresça sem planejamentos. 

Fomos presenteados pela natureza, e está em nossa mãos cuidar e preservar. 

Fontes: Os caminhos de Marechal Floriano – Jair Littig; História da Associação Pró-melhoramento de Marechal Floriano – Jair Littig; Marechal Floriano – Resgatando Memórias – Giovana Schneider; Câmara Municipal de Marechal Floriano.  

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Comentários

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2 respostas

  1. Em Marechal Floriano há uma entidade acolhedora de Idosos. Segundo comentários é muito solicitada e dá aos idosos muita atenção fazendo com que se sintam em casa.

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