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Levantamento aponta que quase metade dos acidentes com vítimas envolve motos e bikes no ES

Dados deste ano foram fornecidos pelo Detran-ES, para quem índices devem ser maiores por causa da subnotificação

 

13.05.2022

 

 

Redação

 

Com uma frota ativa de quase 2,2 milhões de veículos, sendo 574.534 de motos (não há contabilização do número de bicicletas), o Espírito Santo já registrou 4.099 acidentes com vítimas este ano. Desses, 1.772 envolveram motociclistas e 167 bicicletas. Representando um pouco mais de um quarto da frota de veículos, as motocicletas respondem por 43% dos acidentes. Os números não refletem com precisão a realidade. E o motivo é a subnotificação. 



A diretora técnica do Detran-ES, Édina de Almeida Poleto, destaca que acidentes de menor proporção costumam não ser registrados. “A gente tem, de fato, a falta de registros em muitos casos, em especial relativos aos mais vulneráveis: os pedestres, os ciclistas e os motociclistas”, aponta. 

 

O cicloativista Fernando Braga, que é funcionário do Centro de Reabilitação Física do Espírito Santo (Crefes), relata a dificuldade de obtenção de dados precisos. Lotado na unidade de trauma neurológico adulto e infantil do Crefes, o professor de educação física integra equipe interdisciplinar que atua na reabilitação: “Nem lá eu tenho o número de quantos pacientes de UTI são vítimas do trânsito e por qual modal. Até 2018 eu fiz parte da Subcomissão de Análise de Óbitos de Trânsito, que era um programa do Ministério da Saúde. Paramos de fazer análise das mortes porque não tínhamos um boletim preciso”, lamenta.



Para Fernando, a municipalização do trânsito prejudicou a compilação dos números. “O Estado é carente do cruzamento desses dados, por incompetência, por negligência, por omissão. Desde que houve a municipalização do trânsito, ficou um jogo de empurra. Hoje não é mais competência do estado e sim das prefeituras.” A municipalização do trânsito tem previsão no Código de Trânsito Brasileiro (CTB).



Jânio Ribeiro, motociclista e membro do Movimento Capixaba para Salvar Vidas no Trânsito (Movitran), concorda que o número de ocorrências é muito maior do que as estatísticas indicam. “Muitos acidentes não são registrados, seja porque são de menor proporção, seja porque há muita gente conduzindo sem documento do veículo e até mesmo sem habilitação. Essas pessoas evitam registrar o acidente”, afirma. 

 

Para tentar reduzir a violência no trânsito, acontece durante o mês de maio a Campanha Maio Amarelo. Este ano, o lema da campanha é “Juntos Salvamos Vidas”. A ideia é conscientizar a população de que um trânsito seguro depende da atuação consciente de todos.



Imprudência



De acordo com Édina Poleto, a principal causa de acidentes ainda é a imprudência. “O motociclista, por exemplo, muitas vezes coloca a vida dele em risco. Anda acima da velocidade, passa correndo no sinal amarelo quando deveria ter atenção, coloca o celular no capacete. Ele tem que se preocupar com capacete com viseira abaixada, não usar chinelo  - eles acabam tendo muitas lesões graves no pé - e andar na velocidade da via”, orienta. 



Jânio concorda com Édina. “O principal erro é o excesso de confiança. “Eles acreditam muito que o acidente só acontece com o outro. Fazem manobras arriscadas, entram no corredor de qualquer maneira e correm muito. Isso os coloca em perigo”, destaca.

 

Para o motociclista, há muito a se fazer para evitar acidentes com motos. “A primeira coisa é tirar uma habilitação e tirar de forma consciente sobre como pilotar uma moto. Apesar de os órgãos serem rigorosos para a emissão de carteira, falta mexer com o emocional da pessoa. Tem muito motociclista que sobe na moto e esquece que tem uma vida em cima dela, que tem uma família em casa”, afirma Jânio.



Segundo ele, é ainda comum ver desrespeito às normas quanto aos equipamentos de proteção. “O motociclista precisa estar equipado com luvas, jaqueta e calçado adequado. Vemos muita gente pilotando de camisa e chinelo.” 



Jânio observa que a pandemia agravou o problema da existência de motociclistas sem carteira ou habilidade no trânsito. “Com a pandemia e o desemprego, muitas pessoas passaram a trabalhar como motoboy, mesmo sem habilitação ou sem muita habilidade para a profissão”, afirma. Segundo o secretário-geral do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do Espírito Santo (Sindimotos), Luciano Santana, cerca de 5 mil motoboys têm carteira de trabalho no Espírito Santo.

 

O cuidado na prevenção de acidentes não cabe apenas ao motociclista. Jânio aponta os principais erros dos motoristas de carros que geram acidentes envolvendo motos:



“O principal erro é não usar o retrovisor. Muitas vezes, os motoristas de carros fazem mudança de faixa sem prestar atenção no motociclista que está ultrapassando. Só olham se vem carro, principalmente do lado direito do automóvel”, lamenta.



Ciente das inúmeras variáveis que podem causar um acidente, o motociclista defende que muitas tragédias podem ser evitadas com a direção defensiva. “Não podemos ficar preocupados com o erro do carro da frente, mas sim prevenido com o carro que pode errar. O que mais falta é conscientização. Temos que pilotar por nós e para os outros. Podemos absorver a maioria dos erros dos outros sendo mais prudentes”, opina o motociclista. 



Já Fernando Braga entende que é preciso tomar cuidado para não culpar as vítimas. O cicloativista reforçou ainda que a direção defensiva por parte do ciclista muitas vezes não é suficiente para evitar acidentes. “É importante manter a bicicleta em boas condições, pneus, freios e ter atenção. Mas não podemos transferir essa responsabilidade para quem está morrendo, senão vamos continuar contando vítimas”.



Direção segura

 

Código de Trânsito Brasileiro traz uma série de regras para a proteção dos ciclistas e motociclistas voltadas tanto para os condutores desses veículos quanto para os demais motoristas.



O ciclista precisa priorizar ciclovias e ciclofaixas, podendo usar a pista apenas caso não haja esses espaços. É preciso ainda sempre andar na mão da via e cruzar a faixa de pedestres desmontado da bike. 

 

Já os motociclistas precisam usar farol de luz baixa durante o dia e à noite, segurar o guidom com as duas mãos e fazer uso de capacete de segurança, com viseira ou óculos protetores, além de usar vestuário de proteção, de acordo com as especificações do Contran. 



Em contrapartida, os motoristas de outros veículos precisam manter ao menos 1,5 metro de distância dos ciclistas e lembrar da lógica da hierarquia no trânsito estabelecida no CTB: os ciclistas têm prioridade sobre os veículos automotores e os pedestres possuem preferência em relação aos ciclistas.



Contudo, mesmo o fiel cumprimento da lei pode realmente não ser suficiente para evitar acidentes. Por isso, Édina Poleto afirma que é preciso ir além da direção defensiva, buscando a direção segura e antecipando riscos.



“A condução segura cabe a qualquer um. O ciclista, por exemplo, não tem a obrigação de usar uma roupa que dê a ele proteção, capacete, jaqueta, mas é aconselhável. É bom que use roupas claras e reflexivas à noite (que é quando ocorre a maior parte dos acidentes com ciclistas). Direção segura é ir além do que a lei determina quanto aos cuidados ao dirigir”, explica. 



Infraestrutura

 

Para Fernando, a falta de infraestrutura ainda é um grande empecilho ao trânsito seguro para os ciclistas. “Quem tem que dar segurança no trânsito é o gestor. Aí são políticas públicas. Falta tudo, falta foco na hora da concepção do espaço de circulação. A cidade não foi pensada para o ciclista”, aponta. 

 

A diretora do Detran pondera que são poucos os acidentes em razão das condições da via. “Precisa, sim, haver investimento. Os prefeitos, em alguns lugares, têm resistência às ciclovias, por exemplo. Eles pedem para tirar, dizem que o comércio não quer. Precisamos investir em ciclovias e manutenções das vias. Mas, se colocarmos na balança, se analisarmos a quantidade de acidentes porque a via estava com problema, é um percentual pequeno. Eu não tiro a responsabilidade do Estado, dos municípios. Mas precisamos fazer nossa parte”, ressalta Édina Poleto.



Educação no trânsito



Na opinião de Jânio, a solução é a educação sobre o trânsito desde a infância. “Isso deveria ser introduzido em todos os níveis da escola. Existem projetos hoje em escolinhas que ensinam sobre as cores do sinal de trânsito, placas e faixa de pedestres. Hoje a imprudência vem da falta de consciência. Vemos muita gente parada em fila dupla, estacionamento em local indevido que a pessoa liga o pisca-alerta e acha que está tudo bem”. 



A falta de respeito e camaradagem no trânsito também é um obstáculo apontado por Jânio, em especial entre motoristas de carros e os motociclistas. “Você não vê afeto, dar passagem. Você não vê isso entre motoristas de carros e motos, mas vê entre os motociclistas. Um dá passagem para o outro, buzina em agradecimento. Há uma irmandade entre os motociclistas. Isso é fácil de expandir para carro, caminhão ou qualquer veículo. Falta uma campanha nesse sentido”, diz.


 
Fernando Braga, por sua vez, entende que é preciso haver mais estímulo ao uso de meios alternativos e respeito aos condutores desses veículos, além de punições mais duras para motoristas infratores. “O mundo inteiro está restringindo e desestimulando o uso do transporte individual, aplicando penas mais severas e mais duras para condutores infratores. Estamos na contramão”, afirma. 

 

 

 

 

 

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