Articulista e Analista Político do Portal Notícia Capixaba; Wellington Callegari é servidor do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, professor de História, Geografia e Filosofia e Analista Político.
Estamos vivendo, estarrecidos, a pior crise da história do Espírito Santo, com o virtual colapso de nossa segurança e tranquilidade, em virtude do movimento de bloqueio dos quartéis da Polícia Militar feito por parentes e amigos dos policiais. Nos últimos dias temos assistido ou sofrido diretamente com saques, homicídios, guerras de facções, tiroteios à luz do dia ou simplesmente com a tomada de nossas ruas e praças por cenas dignas do filme Mad Max. Até mesmo em nossa bela Região Serrana vimos cenas de anarquia (com direito a baile funk e sexo ao vivo) que praticamente acabaram com a tradicional Sommerfest de Domingos Martins, ou ainda boatos de um arrastão que não se concretizou em Vargem Alta. Pior do que isso foram os deprimentes saques à luz do dia que destruíram comércios no centro de Cachoeiro de Itapemirim. Vimos tristemente o quão frágil é essa planta a que chamamos de civilidade, em nosso clima, bastando dois dias de falta de policiamento para o que o que há de pior em nossa sociedade viesse à tona.
De quem é a culpa? Facilmente podemos atribuir a culpa aos militares e seus familiares, pois o Código Militar, que rege as PMs, bem como as Forças Armadas, veda aos membros da carreira militar tanto a sindicalização quanto a greve, sendo que os motivos para tal proibição estão na própria natureza da vida e organização militares, baseadas na disciplina, hierarquia, autoridade e obediência, sem as quais a atividade militar, que é uma atividade guerreira, se torna inviável e até perigosa para a sociedade. Mas por isso mesmo, surgem outras dúvidas: Como podem os militares reclamarem de seus problemas, se isso lhes é vedado? E existem problemas com a PM do Espírito Santo?
Para a última pergunta, a resposta é óbvia. Os problemas são muitos e não se trata apenas de uma questão salarial, como se tenta veicular de forma maniqueísta. Tratam-se de problemas de manutenção de viaturas, um inacreditável rodízio para o uso de coletes à prova de balas, revólveres que “mascam” na hora H, etc. Temos muitos casos que nos são relatados por policiais, de abuso de autoridade e uso indiscriminado de prisão militar como forma de coação de soldados e praças por diversos superiores. Chega-se ao abuso de se cobrar do parco salário dos PMs, o conserto de avarias nas viaturas, ocorridas em perseguições policiais. Os policiais não dispõem de planos de saúde e quando precisam, enfrentam dificuldades de atendimento no sucateado Hospital Militar. Sem falar das terríveis pressões sofridas da parte de amplos setores da imprensa, que ao menor sinal do aumento de criminalidade em um bairro, cobram providências da PM, mas quando essa atua de maneira um pouco mais firme, já tacham de truculenta a ação policial, clamando por inquéritos e processos disciplinares e criminais, os quais muitas vezes mancham as carreiras de bons soldados. Não meus caros. Não se trata apenas de salários. O perfil médio atual de nosso soldado é o de alguém estressado (quando não depressivo), acuado pela imprensa, desvalorizado e que se sente hostilizado pela sociedade que deve proteger. Nada pior e mais perigosa do que uma situação dessas.
Quanto aos canais de comunicação da PM com a sociedade e com o governo, que é quem pode dar um alívio à seus problemas, a situação é ainda pior. Em que pese uma muito propagandeada responsabilidade fiscal do atual governo, está se tornando notória para muitos à sua total indisposição ao diálogo com quem quer que seja. Paulo Hartung possui sim, qualidades de gestão. Mas seu tom imperial e arrogante já está ficando folclórico, especialmente no trato com servidores públicos. Esse trágico movimento das famílias dos policiais é apenas a explosão desesperada de uma categoria quê, não tendo outros meios à sua disposição para ser ouvida, acabou por optar pela pior forma possível. Faltou diálogo ao governo, não agora que a crise estourou, mas há muito tempo. Faltou inteligência. Faltou humildade. Faltou humanidade.
E a grande vítima disso tudo está sendo a sociedade capixaba, que está acuada, sangrando e exposta como uma vítima em praça pública, para todo o Brasil.


