domingo,
29 de março de 2026

Artigo/Opinião

“O preço do descuido”: Marechal Floriano, retrato de uma conta que sempre chega’

Por Giovana Schneider 

O que assistimos agora é o amargo preço do descuido, um ciclo onde a indignação só desperta quando a água invade a sala de estar. O córrego não “transbordou” por maldade; ele apenas não encontrou solo para infiltrar. Quando as construções avançam sobre às margens, as águas perdem sua “área de escape”, e sem ter para onde ir, segue o caminho da menor resistência: as casas, ruas e avenidas.

A ganância também é um grande fator, pois não enxergam o mal que estão praticando contra o meio ambiente e a população em geral, e também sendo eles próprios atingidos.

O senhor Emílio Gustavo Hülle era um visionário, sempre preocupado com o desenvolvimento de Marechal Floriano, propôs um plano urbanístico, isso lá em 1948: “Proponho que seja oficiado ao Sr. Prefeito para que todas as construções de casas em Marechal Floriano, só possam ser iniciadas após o visto da autoridade competente. [sic]

JUSTIFICATIVA: — O assunto é regulado pelo código de posturas desta prefeitura, mas tem por fim que seja seguido um certo plano urbanístico, evitando deste modo que sejam construídas casas fora do alinhamento, mesmo onde presentemente ainda não existem ruas. Marechal Floriano é uma localidade em franco progresso e onde tem sido construído muito ultimamente, ficando o seu aspecto grandemente prejudicado si cada um construir onde bem lhe aprouver.

                 Cidade de Domingos Martins, 20 de janeiro de 1948

                                                 Emílio G. Hülle”

Fonte: Livro “Marechal Floriano — Regatando Memórias” de Giovana Schneider

O preço do descuido, é uma conta inevitável.

As enchentes em Marechal Floriano têm história, isso não podemos negar. Mas agora tem ruas que estão sendo bem afetadas por falta de escoamento das águas do córrego. Ao sufocarmos às margens com construções irregulares e impermeabilizarmos o solo sem oferecer vazão ao curso natural das águas, transformamos a chuva em castigo. Elas apenas reclamam o espaço que lhes foi tirado. Além disso tem o lixo jogado indevidamente. É mais fácil culpar o “volume atípico de chuva”, e repetirá, possivelmente com consequências ainda mais graves devido às mudanças climáticas que está acontecendo. Portanto, essas inundações não estão ocorrendo por acaso; é consequência direta do que foi sendo feito ao longo dos anos e ninguém fez nada, mas que agora é preciso fazer sim, um planejamento, para que isso não se agrave muito mais.

Vou aqui citar um exemplo: Um dos principais desafios urbanos e ambientais de Belo Horizonte. A canalização e o “tamponamento” (cobertura) de rios e córregos, realizados principalmente ao longo do século XX para dar lugar a grandes avenidas, é considerado um fator que agrava as enchentes na capital mineira.  Rios Invisíveis e Enchentes: Mais de 60% dos cursos d’água em Belo Horizonte correm em galerias abertas ou fechadas. Quando chove intensamente, o volume de água supera a capacidade dessas galerias (o “cano” fica pequeno), forçando a água a subir e ocupar as avenidas que foram construídas sobre eles, como a Afonso Pena, Prudente de Morais, Silviano Brandão e Pedro II. A visão técnica atual é que essas canalizações foram um erro de planejamento e que restaurar ou integrar os rios à paisagem urbana seria uma solução mais sustentável, embora difícil devido à infraestrutura já construída. Fonte: Internet

Foto entre 1962 a 1964. A antiga BR 31, ainda em cascalho. Ao lado esquerdo, nos fundos, ali transformaram em lagoas. Mais tardes, foram aterradas.

Lembro-me bem de um córrego que corria próximo onde é a Av. Arthur Haese. Hoje, ele parece ter ficado invisível sob o asfalto, posto e prédios. Mas a natureza tem memória: quando a chuva aperta, a avenida logo enche. Isso acontece porque tentamos esconder o rio em tubos de concreto, mas esquecemos que, sem terra para absorver a água, o antigo leito reclama seu espaço, transformando a rua novamente em rio. O problema das enchentes nessa parte de Marechal Floriano é um reflexo direto dessa “invisibilidade”.

Diante das águas que sobem e da lama que fica, a pergunta que resta é incômoda, mas inevitável: até quando aceitaremos que o fator humano seja a força invisível por trás dessas inundações, e o que mais precisaremos perder para entender que negligenciar o meio ambiente é, no fim das contas, uma forma lenta de planejar nossa própria ruína? Pois, a tendência das cheias florianenses é só piorar a cada ano, infelizmente, se nada for feito.

Comentários

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Respostas de 3

  1. Parabéns pela reportagem e por enxergar a realidade. Realmente eu não reconheci muitas ruas alagadas pois quando residia em MF a nossa rua era uma das primeiras a alagar devido a proximidade do rio. E o nosso pobre rio que está irreconhecível .
    A natureza está cobrando mudanças.

  2. Parabéns pela matéria. infelizmente não é só em Marechal Floriano mais em muitas outras cidades que os pequenos córregos estão se tornando invisíveis.

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