Alan Fardin
Investigação da Polícia Civil analisa dados extraídos de um telefone celular apreendido com um empresário do setor de construção civil que indicariam uma possível relação de pagamento de propina a pelo menos um prefeito do Espírito Santo e integrantes de sua cúpula política.
O aparelho foi recolhido após a prisão do empresário, ocorrida em razão da posse de armas de fogo sem registro. Durante a verificação do conteúdo do telefone, investigadores localizaram conversas diretas entre o empresário e o chefe do Executivo municipal. Neste primeiro momento, os nomes permanecem sob sigilo.
Segundo os dados, interações mantidas por meio do WhatsApp mostram tratativas relacionadas a pagamentos destinados a facilitar contratações públicas. Entre os supostos benefícios oferecidos diretamente ao prefeito estaria a construção de uma residência de veraneio em Guarapari. O imóvel teria sido colocado em nome de um laranja, vinculado a uma estrutura empresarial composta por doze empresas criadas para ocultar patrimônio no período em que os pagamentos teriam ocorrido.
As conversas analisadas evidenciam uma sequência de mensagens que começa com a aquisição do terreno, passa pela escolha de profissionais responsáveis pela obra e segue até a conclusão da construção. Em um dos trechos registrados, o empresário afirma “estou fazendo por você”, mensagem seguida de um emoji de confirmação enviado pelo líder político municipal, indicando que estaria ciente e concordando com as tratativas. A conexão era tão esdrúxula que o mandatário chegou a aprovar parte do que era dito com uma figurinha da sua imagem fazendo “joinha”. Há ainda vídeos enviados pelo empresário que mostram a evolução do imóvel de alto padrão, com piscina e área de churrasco.
Em outra troca de mensagens, o empreiteiro, utilizando linguagem informal, como era praxe entre os dois, refere-se ao gestor como “meu chefe” e solicita a liberação de um contrato que estaria “travado”. Em resposta, o prefeito afirma que iria resolver a situação imediatamente.
O advogado consultado, Fúlvio Secatti, argumentou que, se um empreendedor solicita a um dirigente do Executivo local para “resolver” ou “destravar” um contrato fora dos procedimentos administrativos normais, a conduta pode configurar irregularidade administrativa ou até crime, dependendo das circunstâncias.
Outros nomes surgem e a estrutura do esquema começa a aparecer.
As conversas também apontam ramificações do caso em outras esferas de poder. Um deputado federal aparece indiretamente nas mensagens, por meio de um assessor que trataria do recebimento de valores indevidos. Segundo o material analisado, os repasses não se limitariam ao financiamento de campanhas eleitorais. As mensagens sugerem a existência de pagamentos recorrentes destinados a garantir apoio político contínuo do parlamentar, que teria forte influência na prefeitura citada e seria amigo pessoal do prefeito. O pai desse político também surge diretamente nas falas comprometedoras.
Dentro da própria administração municipal, um procurador também emerge no diálogo com o construtor investigado. Ele figura em mensagens relacionadas à facilitação de contratos, com troca de comprovantes bancários e discussões sobre quantias combinadas. Em alguns trechos, surgem reclamações de integrantes sobre diferenças entre os recursos acordados e os montantes efetivamente pagos.
O conjunto de registros sugere a atuação de uma estrutura organizada, na qual cada integrante teria funções específicas nas engrenagens do esquema. Parte do dinheiro também teria sido entregue em espécie. Dois vídeos encontrados no aparelho mostram o próprio empresário registrando a entrega da propina supostamente a dois secretários municipais da administração investigada.
O material armazenado no celular reúne anos de conversas, documentos e registros que indicam uma relação prolongada entre o representante do setor de construção e agentes públicos.
A fonte da informação é do jornalista Alan Fardin, do portal Opinião ES.


