Por Giovana Schneider
O que começou como uma manifestação tímida de fé, restrita ao espaço interno de uma igreja, transformou-se em um dos maiores momentos de união comunitária de Marechal Floriano. A celebração de Corpus Christi consolida, a cada ano, uma trajetória de expansão territorial e fortalecimento espiritual que impressiona os moradores locais.
No início, os tapetes eram confeccionados apenas dentro da igreja de Sant’Ana. Com o tempo, a tradição avançou para a subida da igreja e, mais tarde, passou a cobrir um percurso de aproximadamente 100 metros. Anos depois, liderado pelo então Padre Marcos Brito, o evento ganhou fôlego e se estendeu ainda mais.
Atualmente, a celebração ganhou novas proporções: o ponto de partida é o Ginásio de Esportes da cidade, local que acolhe a Solene Missa antes da tradicional caminhada sobre os tapetes, atraindo uma multidão de fiéis.
O Padre Antônio Monteiro, que assumiu as atividades em Marechal Floriano em março deste ano, expressou grande alegria ao ver o empenho dos fiéis na confecção dos tapetes.

“Na solenidade de Corpus Christi, queremos recordar que os atos redentores de Cristo, que culminam na sua morte e ressurreição, atualizam-se na Eucaristia, celebrada pelo Povo de Deus e presidida pelo ministro ordenado.”
“Pela comunhão neste admirável mistério, vós santificais os vossos fiéis, para que a mesma fé ilumine e a mesma caridade reúna todos os homens que habitam um só e mesmo universo.”
“É uma celebração mais festiva e alegre da Eucaristia (fora da semana santa).”
Uma Festa 100% Religiosa e Comunitária
Diferente de outros festejos municipais que misturam elementos, o Corpus Christi em Marechal Floriano mantém uma essência estritamente religiosa. O foco absoluto é a celebração do mistério da Eucaristia.
Segundo um dos organizadores, Natalino Bianchi Netto, a festa é a oportunidade ideal para o católico expressar a fé publicamente, “levando Jesus Sacramentado para as ruas”. Ele destaca que essa essência se reflete no próprio processo de preparação: “A festa não começa no momento da Santa Missa, na quinta-feira de Corpus Christi, mas sim na tarde do dia anterior. É quando os voluntários iniciam a preparação da base com areia. Após a bênção na igreja, às 18h, eles começam a trabalhar incansavelmente na confecção dos tapetes. São diversos desenhos que formam um verdadeiro mosaico de cooperação, envolvendo cerca de 600 pessoas.”
Essa imensa rede de apoio envolve famílias locais, pastorais, movimentos, equipes de serviço e comunidades católicas atuantes no município e região:
Santana (Matriz)
São Francisco
São Bento (Alfredo Chaves)
Santo Antônio (Victor Hugo)
Santíssima Trindade (Alto Nova Almeida)
São Cristóvão (Trevo de Paraju)
Nossa Senhora Auxiliadora (Soído de Baixo)
Santa Clara (Vila Schunk)
São Sebastião (Alto Marechal)
Santa Rita
Nossa Senhora Aparecida (Basílio)
Sagrado Coração de Jesus (Todos os Santos)
Santa Luzia (Alto Bahia Nova)
Bom Jesus
Frei Galvão (Costa Pereira)
Mensageiros da Boa Nova

A Força da Juventude e o Sentimento de Devoção
A participação ativa dos jovens é uma das marcas registradas do evento. A jovem Luana Simon Vasconcelos, atuante na igreja, conta que, embora já tivesse o costume de ajudar, esta foi a sua primeira vez participando ativamente do tingimento da areia e do pó de serra.
Ela relata que o processo é demorado, cansativo e leva dias, mas o resultado final compensa cada segundo. Para Luana, a atividade é um ato de amor, fé e evangelização onde se sente acolhida e “em casa”. Enquanto trabalha, ela relata a emoção de imaginar a passagem de Jesus Eucarístico sobre os tapetes — que define como obras de arte cheias de significado. A palavra que resume sua experiência é gratidão.
Quem partilha desse sentimento é Marcela da Silva, membra da Comunidade Santa Rita de Cássia, que participa da confecção desde 2022. Para ela, o significado do evento amadurece a cada ano, superando a ideia de uma simples tradição ou arte: “A preparação dos desenhos, flores e detalhes é um gesto concreto de amor, devoção e gratidão ao sacrifício de Jesus. O ponto alto de tudo isso é a união e a comunhão entre as pessoas.”
Marcela reforça seu desejo de continuar contribuindo para que a celebração permaneça viva como um testemunho do amor de Deus.

Liberdade Criativa e a “Marca Registrada”
Não há uma temática fixa obrigatória; cada comunidade tem liberdade para criar seus tapetes, desde que o desenho seja baseado no Corpo de Cristo (Eucaristia) e traga a identidade visual de sua respectiva localidade.
Na escolha da matéria-prima, a sustentabilidade e a natureza local ditam o ritmo. A base dos tapetes é feita de areia, e o preenchimento prioriza materiais recicláveis, pó de serra colorido, cavacos, folhas e muitos tipos de flores. O grande destaque é a utilização da flor de mel, que se tornou a verdadeira marca registrada, perfumando as ruas e garantindo um visual único ao percurso.
E se chover? Essa é uma dúvida comum em eventos de rua, mas a organização e os voluntários mostram que o clima não é um obstáculo intransponível para a fé. A união do povo garante a estrutura necessária para proteger o trabalho.
No fim, o envolvimento coletivo transformou as ruas de Marechal Floriano em um canteiro de criatividade e devoção. Muito além dos metros estendidos pelo chão, o que realmente cresceu ao longo dos anos foi a disposição do povo em caminhar junto, provando que a celebração de Corpus Christi é, antes de tudo, uma obra comunitária viva e sempre em construção.


